Mostrando postagens com marcador Contos da Amazônia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos da Amazônia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

SONHO DE PESCADOR


Autor: José Lemos
Madrugada ainda, quando Manoel Antero foi bater á porta do seu compadre Chico Dias para a combinada pescaria, cujo resultado, traria a garantia do almoço, para a turma comprometida na preparação da área destinada ao plantio do jutal do seu Chico; que todos os anos era feito da mesma forma, ou seja, troca de trabalho; comum naquela época, quando não era ainda usado a habitual forma de pagamento diária. Era o tradicional Ajuri ou Puxirum quando o dono do serviço ficava comprometido a prestar a qualquer dos participantes a ajuda que lhe era oferecida no momento.
Era simplesmente a “troca”, valida também quando o assunto era alimentação. Quando algum matava um tambaqui ou uma caça, o produto era repartido irmanamente entre os vizinhos, que faziam o mesmo, religiosamente.
Chico Dias, depois de quebrar jejum, saiu com seu apretecho de pesca, na companhia de Antero, posta a canoa em condições foram em busca do local onde o peixe era muito abundante, apesar de como sempre acontece, existir a infalível “pousada”. No lançamento, seu Dias deixou a tarrafa descer toda a extensão da corda, para iniciar o recolhimento. Aí sentir que a mesma engatada, no fundo, pois apesar do esforço, não conseguiu trazê-la á torna. Na ocasião, o sol já estava esquentando, e depois de longo bate papo, abriram a garrafa de cachaça e começaram as intermináveis histórias, quando Antero resolveu descer para desengatar a tarrafa, presa em algum toco. Pediu ao companheiro que segura-se firme a corda que o guiaria até o fundo. Na metade da descida Antero sentiu falta de ar e como um relâmpago retornou a superfície, quase entregando os pontos.
Depois de tomar mais um gole, sentindo-se capaz de desempenhar seu intento, desceu novamente e foi diretamente onde estava a tarrafa, por sinal abarrotada de peixes. Lentamente retirou-os, e um a um foi enfiando num cipó que encontrou próximo. Livre a tarrafa, a pinga começou a fazer efeito e nosso herói resolveu descansar um pouco deitado no próprio toco onde a mesma estava subjugada, aproximadamente oito metros de profundidade. Depois de fumar um cigarrinho, pegou no sono. Até ser acordado pelo movimento brusco da tarrafa que estava sendo içada já pela Dona Elvira, que preocupada com a demora veio em busca do seu Chico que dormia a todo pano, completamente bêbado, no porão da canoa. O pessoal que iria trabalhar no roçado, estava pronto a receber o corpo de Antero, que tudo indicava vinha subindo enrolado na rede de pesca onde pouco antes lhe servira de leito. Se houvesse naquela ocasião, aparecido uma cobra tocando sanfona, não causaria tanto assombro quanto da aparição com vida, do Antero. Foi uma debanda geral e talvez daqui algum tempo voltem a pensar no roçado do Chico Dias.
Foi uma luta, convencer ao Antero a não voltar a mergulhar no local, pois o mesmo queria porque queria, ir buscar os peixes esquecidos nas profundezas das águas, todos devidamente enfiados e que não serviram para o almoço, nem mesmo dos pinguços.

PARANÁ DO RAMOS


Autor: José Lemos
No ano de 1957, quando estive no Paraná do Ramos, município de Urucurituba, me foi dada a oportunidade de conhecer mestre Elízio, um morador da região, ótimo carpinteiro e melhor ainda, contador de histórias.
Entre muitas que ouvi, lembro-me de uma relacionada a existência de um boto vermelho (que Jacques Cousteau chamou de cor-de-rosa), velho conhecido de nosso ribeirinhos. Foi assim que mestre Elízio relatou um fato acontecido com o pescador Saturnino Pantoja, que vivia em companhia da mãe e de dois irmãos menores e que após a morte de seu pai ficou sob sua responsabilidade para sustento e guarda da família. Sua mãe sempre o aconselhava para que não pescasse à meia noite, hora, para ela, sagrada como o meio dia, quando até os animais param para descansar. Saturnino nunca obedecia, pois achava ser aquela hora a melhor para pescar, devido o silêncio que sempre acontece no fim da noite e início do novo dia. Seus ouvidos acostumados podiam ouvir o barulho dos peixes se movimentando nas águas, principalmente o maior deles, o pirarucu, que em determinado espaço de tempo vem à tona para respirar e na volta às profundezas do rio faz um movimento brusco com o rabo facilitando ao pescador sua localização e o arremesso da haste em cuja ponta se encaixa o arpão certeiro. Saturnino era um jovem forte e corajoso, incapaz de se intimidar diante de uma situação perigosa que fosse. Não sabia o que era medo.
Certo dia, chegou da roça, já à tardinha, desceu ao porto com a cuia na mão e tomou um banho ligeiro. Jantou na companhia dos seus e foi verificar os apetrechos de pesca, ou seja: haste, arco, flechas, linhas e arpões, matérias indispensáveis à pescaria. Justamente onze horas da noite, embarcou no seu “casco” e dirigiu-se ao local onde sabia que iria encontrar grande quantidade de pescado.
Era agosto, as águas recebiam carinhosamente o sopro da brisa e se movimentavam lentamente, refletindo como um espelho, os raios do luar, transformando o cenário num espetáculo que só a natureza é capaz e um cérebro privilegiado de transformar em palavras a grandiosidade da beleza apresentada pela união: brisa, água e luar. Infelizmente não é o meu caso. Voltando ao nosso personagem que atônito como que lhe era dado observar, esqueceu momentaneamente o porquê de sua presença no local.
Exatamente à meia noite, começou a movimentar sua “montaria” em busca de um local para descer a poita e esperar o aparecimento do primeiro peixe a ser atingido por seu arpão. Não demorou muito a perceber um barulho e movimento estranho na água, como se algo estivesse alertando os peixes do perigo iminente e os levando para outra direção. Saturnino atentou uns minutos e entendeu a causa de tudo. Era a presença de um grande boto vermelho que por verias vezes atingiu o caso de sua frágil embarcação, pondo em risco a estabilidade da mesma.
Sem pensar duas vezes, empunhou sua haste e num movimento rápido atingiu com o arpão o dorso do intruso, que ferido gravemente se pôs a debater nas águas provocando um barulho infernal, ao mesmo tempo em que um silvo pavoroso cruzou os ares e imediatamente apareceram dezenas de botos vindos em socorro do chefe. Saturnino sentiu uma espécie de topor que o fez adormecer de pronto. Tempos depois despertou no xadrez de uma delegacia, cercado de soldados, todos fardados de vermelho. Foi levado á presença do subdelegado para ser submetido a interrogatório sobre o crime cometido contra autoridade policial.
Sem ainda entender o que estava acontecendo, foi levado a uma sala, onde viu em cima de uma mesa, coberto com um lençol branco um corpo bastante volumoso e quase inerte. Ao lhe ser mostrada a vítima, recebeu o ultimato de salvá-la ou ter que ficar preso para sempre. Um suor frio desceu do seu rosto em bica pelo corpo todo, parecendo ter saído da água naquele momento. Grande foi sua surpresa ao verificar que seu paciente era nada mais, nada menos que o boto horas antes arpoado por ele. Pondo em prática seus conhecimentos retirou o arpão alojado no corpanzil do “delegado”. Voltando à presença da autoridade de plantão, ficou sabendo que havia cometido um crime contra a pessoa de maior autoridade policial local, que em serviço fazia a ronda no lago onde aconteceu o fato antes narrado. Foi aconselhado a não repetir o delito, o que prometeu sob juramente, na presença de todos os policiais.
Passado pouco tempo, como a acordar de um sono agitado, Saturnino se viu dentro de sua embarcação, porém muito distante de sua casa. Mesmo sendo grande conhecedor da região não pôde de primeira, entender onde estava. Aos poucos foi se orientando até conseguir a direção correta. Chegando em casa já bem tarde onde seus familiares o esperavam alvoroçados, como pressentimento que Saturnino tinha tido o mesmo fim do pai, morto em uma pescaria. Todos ficaram felizes e Saturnino nunca mais foi à pesca no horário que lhe era comum. Passou a pescar sempre muito antes da meia noite como aconselhava sua mãe.

O BAILARINO ALADO


Autor: José Lemos
Sempre que ligava a televisão, para assistir noticias do Estado, através do canal Ajuricaba, era comum assistir nos intervalos, o show apresentado por um filhote de socó, que no ritmo da música, dava uma demonstração de um verdadeiro dançarino. Não sabia o porquê do repentino desaparecimento do pássaro até que um dia resolvir fazer uma viagem imaginaria, ao interior do município de Nova Olinda do Norte, precisamente ao lago do cajui, onde encontrei uma família de nordestinos, remanescente dos soldados da borracha, que no tempo da guerra, eram recrutados no Ceara para trabalharem no Amazonas e Acre, na extração do látex da seringueira.
Ainda no seu estado, eram-lhe dito da facilidade de se trabalha na produção da borracha. Para eles era só cortar a árvore e colher a matéria prima já acabada, no ponto de ser vendida ao comprador. Puro engano.
Seu Bonifácio e os filhos, Cícero de dez anos, Sebastião de onze e Zé Mario de doze, vieram em busca do Eldorado prometido.
Chegaram a Manaus no ano de 1942 e depois de poucos dias numa hospedaria, juntamente com os milhares de conterrâneos foram embarcados para os seringais do Acre. Vou deixar de contar o resto da história da família do seu Bonifácio, pois já desviei bastante do assunto “Socó”.
Os três irmãos já mencionados, todos já eram casados e com netos, um dos quais era agora, uma espécie de chefe da casa, ou melhor da comunidade, pois viviam na mesma propriedade adquirida por eles, logo depois do fim da guerra.
Conversando com o mais novo da turma, o Zezinho, de quinze anos, fiquei sabendo a verdadeira história do nosso personagem. Criado desde pequenino, o pássaro era colocado num varal, bem ao lado de uma janela de onde todos os dias ele ouvia músicas tocadas num velho gramofone, e sempre repetidas, por falta de outros discos de vinil.
Assim o socozinho ia, no afam de se equilibrar no varal, apresentado o seu balé involuntário, um dia um visitante ficou tão impressionado, que resolveu filmar aquela dança que terminou sendo apresentada na televisão.
Gabriel, o dono do pássaro, depois de muita insistência conseguiu autorização do pai para sair em buscar do fujão, que já causava muita saudade em todos da comunidade.
Formada a expedição, composta por três membros da família, Gabriel, Cícero e marcos a fim de levar a bom termo a empreitada. No terceiro dia de viagem, já bem longe do local da partida acamparam sob a sombra de uma grande sumaumeira e lá pernoitaram, sem antes combinarem que o dia seguinte seria o ultimo da tentativa para encontra o “filhotinho” de socó desaparecido.
Bem cedo, estavam ainda levantando acampamento quando ouviram não muito longe uma espécie de concerto, formado por cânticos de vários pássaros, todos conhecidos pelos membros da expedição. Logo se aproximaram e qual a surpresa da turma ao verem a frente da orquestra, como um verdadeiro regente, o motivo de toda trabalheira. Um socó imponente e altivo comandava uma turma imensa de pássaros vários, todos perfilados seguiam as instruções do chefe. No final, ensaiaram uma dança tão bem executada que os nossos amigos esqueceram completamente o motivo da viagem. Agora só viam o que estava acontecendo e o porquê da beleza apresentada pala natureza, principalmente àquela hora da manhã.

LIGEIREZA


Autor: José Lemos
Todos a chamavam de melindrosa, pois quando passava ia deixando um rastro de soberbia pelo chão. Era funcionaria pública e gosava de prestigio junto à chefia.
Naquele fim de mês, lá vai ela toda lampeira receber seu polpudo ordenado, depois de se emperiquitada pegou sua ronda e lá se foi rumo a repartição empregadora, tinha que cumprir suas obrigações mensais, ou seja devia assinar recibo na folha de pagamento o que por si só já justificaria um pedido de aumento. Todo fim de mês era aquele trabalhão, ter que ir “justificar o seu honesto rendimento, sem perda de tempo, cheia da grana, foi em direção ao magazine para as compras habituais. Por infelicidade, ao subir o primeiro degrau, escorregou, e em menos de um segundo estava de pé e dona de toda pose, olhou para os lados e viu um bêbado sentado no meio-fio da calçada e ainda assustada perguntou-lhe: viu minha ligeireza? Ao que o bêbado respondeu “vi...só não sabia o nome”.

O DONO DO MUNDO


Autor:José Lemos
O pescador preparou sua canoa e convidou seu compadre para uma excursão às proximidades da cidade, a fim de efetivar uma pescaria, a cata de peixe liso, cuja venda já acertada com um certo frigorífico, lhe garantiria as despesas do mês. Tudo nos conformes, ao chegarem num local onde achavam apropriado, lançaram a poita e começaram na labuta costumeira. Linha mágica, não demorou para o primeiro pescado ser visgado e iniciou o trabalho para o embarque. Nesse instante, também surgiu os primeiros raios de sol e localização da embarcação ser revelada. Estavam além do porto da hermasa. A luta para tontear o peixe continuava quando ouviram uma ordem vinda de terra- “você divida esse peixe bem no meio e dê uma banda para este aleijado” esta área toda me pertence.
O pescador, sentindo-se um vassalo, aproveitou as forças que ainda restavam a imbiara, e tratou de glosar a linha de encontro a madeira da canoa, de forma enfraquecer-la e propiciar ao peixe livrar-se daquela situação, na primeira tentativa.
Em seguida, remou em direção ao liso, ou melhor, para o meio do rio, e de lá, gritou para o dono do pedaço: chefe me dê licença de tomar um pouco da sua água.

O CORNETEIRO


Autor: José Lemos
Pipoca acordava feliz da vida, iniciando logo a jornada diária, sua venda de picolé, não esquecendo nunca a propaganda feita através da tradicional corneta, anunciando o picolé mais gelado da cidade. Um freguês assíduo e muito amigo, notou a tamanha alegria do picolezeiro e quis saber o motivo, depois de muita insistência ficou sabendo, pois conseguiu que pipoca lhe contasse tudo. Após a noite de sua primeira mulher, já havia conseguido companhia de umas seis ou sete amasias. Todas enfeitaram
, por traz de uma folhas, um vulto que logo identificou ser de um soldado que fazia sinal para sua companheira. Pipoca entrou na casa e com um rolo de papel higiênico na mão partiu em direção ao policial que já ia saindo da privada. Ofereceu-lhe papel e ele educadamente agradeceu “muito obrigado, já estou de saída.” A viúva foi a última na sua relação, apenas com a a sua cabeça. A última, uma viúva juramentada, uma perfeição de honestidade, com muita lábia foi viver em sua casa. Estou feliz, pensando que afinal havia encontrado a mulher ideal.
Foi ao supermercado e adquiriu um rancho para todo o mês. De passagem pelo mercado, comprou bastante peixe, o que foi prontamente tratado, causando ao nosso Pipoca sentimento de culpa. Sentiu remorso pelo enorme trabalho que estava dando a sua recém conquistada. Da porta da cozinha, avistou no fundo do quintal, por traz de umas folhas, um vulto que logo conheceu ser de um soldado que fazia sinal para sua companheira. Pipoca entrou na casa e com um rolo de papel higiênico na mão partiu em direção ao policial que já ia saindo da privada. Ofereceu-lhe papel e ele educadamente agradeceu “muito obrigado, já estou de saída”. A viúva foi a ultima na sua relação, apenas com a sua corneta continuou...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O AZARADO


Autor: José Lemos
Pimentinha acordou se sentindo tão mal que resolveu procurar emprego, de preferência na Prefeitura. Era amigo do chefe e nada mais justo, ser incluído na relação dos fantasmas. Ir uma vez ao mês receber o ordenado, para ele já era muito trabalho. No dia seguinte, já bem melhor, sacudiu aquele mal pensamento da cabeça foi direto ao mais importante: Um bom viver, sem o menor sacrifício.
Esperou pelo anoitecer, e foi direto á sua primeira missão, para a qual já havia preparado um pé de cabra capaz de arrancar com facilidade, cadeado por mais forte que fosse já por volta das dez horas da noite, com tudo pronto, esperava a cidade adormecer para agir sossegadamente. A vitima estava escolhida e o trabalho iniciado. Vários carros passaram e entre eles, uma viatura da policia que pimentinha ao ver dobrar a esquina, pensou está livre.
Para seu infortúnio, um membro da guarnição o conheceu e dando volta ao quarteirão o pegou com a boca na botija. Preso e algemado, sem conseguir justificativa para seu ato, virou-se para o cabo e perguntou “é justo efetuar policiamento num veiculo sem sirene”?...

segunda-feira, 23 de março de 2009

O BENZEDOR QUE VIU NOSSA SENHORA

Ricardo Abreu

Em tempo idos, quando a cidade de Itacoatiara era apenas um pequeno povoado onde atualmente é o centro, existiu um homem conhecido como José Higino, um benzedor de crianças que atendia todas as mães que o procuravam com seus filhos doentes. A fé era tanta na reza do benzedor que as criancinhas saravam e nada cobrava pelos serviços.
Mas Higino tinha um grande defeito, que era de tomar suas pingas nos finais de semana. Uma noite, ele bebeu além da conta e quando caminhava para sua residência sentou no banco da praça 13 de Maio e logo se agasalhou para dormir. Naquele tempo não tinham os perigos que tem hoje, as pessoas podiam dormir nos bancos das praças tranquilamente que não seriam perturbadas por marginais. Lá pelas tantas da madrugada, Higino acordou com uma lua esplendorosa cobrindo toda a praça e em pé na sua frente, uma bela senhora vestida toda de branco que refletia uma luz suave em sua volta e olhava para ele com ternura. Filho quantas criança você deixou de atender hoje? quntos inocentes precisaram dos seus conhecimentos? você tem uma missão aqui na terra e precisa realizar-la com todo amor e carinho, pois amor, esperança e fé é tudo que as pessoas precisam ter e acreditar.
Higino o benzedor no dia seguinte contor pra todo mundo que tinha visto Nossa Senhora do Rosário e que apartir daquele momento não colocaria uma única gota de pinga na boca. A historia se espalhou pela pequna cidade. Os anos passaram e a história de higino continuou sendo contada de geração em geração.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A IARA

Autor: Lemos, José

P1000263

Um boto e uma Tartaruga

Há muitos anos passados existiu quase em frente ao estabelecimento comercial do senhor Manuel Oliveira Lamarão, instalado na parte sul do majestoso prédio do Mercado Municipal no inicio da Rua Fileto Pires com a Avenida 15 de Novembro um quiosque de madeira cujo proprietário teve o cuidado de colocar ao lado do seu comercio uns bancos para descanso de seus fregueses, na maioria composta de catraieiros, marítimos, carregadores, valentes e desocupados: os quais entre um gole e outro contavam suas façanhas vividas na terra, no mar e até no ar.

Uns histórias de amor felizes outros de dores e sofrimentos invocando na maioria das vezes as figuras lendárias do boto, cobra grande e da Iara.

Certa vez quando ia comprar peixe no Mercado me aproximei daquela reunião e pude ouvir de um pescador já velho e alquebrado a seguinte história:

Não julgue meus amigos ser contos de fadas a existência da Iara. Ela existe eu já a vi com esses olhos que a terra fria há de comer. Voltava de uma pescaria no inicio da madrugada quando defrontando uma praia próximo á minha casa avistei uma jovem de cabelos longos, nua, banhando nas águas prateadas pelo clarão límpido da lua. Ela nadava e em seguida ia deitar-se na areia de barriga para cima como um convite ao pecado.

Naquele tempo não era o velho de hoje. Era um moço forte e cheio de coragem. Silenciosamente me aproximei da margem e encostei a canoa um pouco afastado do local e como um animal selvagem fui me arrastando pôr entre as oiranas, alheio ao perigo de uma picada de cobra ou outro inseto não menos venenoso. Minha emoção era tão forte que pôr várias vezes fiquei como flutuando numa outra dimensão. Senti o mundo girar em torno de mim a vista escurecer. O motivo estava a pouco passos, provocando uma sensação estranha de fraqueza que dominando todo o meu corpo poderia me desmoronar a qualquer momento.

Confesso que nunca imaginei pudesse existir uma criatura de tanta formosura beleza assim somente a mão de Deus é capaz de produzir. Ela continuava a banhar-se e ao sair das águas ficava a contemplar o luar e aspirar o aroma estonteante que só as flores mas simples são capazes de exalar.

Num momento em que ela parecia distraída como um raio me atirei de braços abertos ao encontro daquele corpo maravilhoso. Pude sentir apenas o ar do seu deslocamento em direção ao rio; de onde, com os seios de fora, me chamava com gestos carinhosos.

Como um louco me arremessei na águas e quando minhas mãos tremulas de emoção seguravam os braços rígidos da cabocla, ela desapareceu para sempre, deixando-me viver até hoje de suas recordações. Muitas e muitas vezes voltei ao local, principalmente em noite de luar, porém nunca mais consegui encontrá-la novamente.

De seus olhos, grossos bagos de lagrimas rolaram. Vendo-o chorar perguntei-lhe o porque; e ele me respondeu que chorava de tristeza. Ao dizer-lhe que não valia a pena, o velho pescador passando a manga de sua camisa sobre os olhos marejados de lagrimas, respondeu: É porque você não pode avaliar, a saudade que ela deixa...no coração da gente.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O BOTO VERMELHO - CONTO

rua quintino bocaiva

Rua Quintino Bocaiúva

CONTOS DOS RIOS DA AMAZÔNIA (Titulo Original)

Autor: Lemos, José

No ano de 1957, quando estive no Paraná do Ramos, município de Urucurituba, me foi dada a oportunidade de conhecer mestre Elísio, um morador da região, ótimo carpinteiro e melhor ainda, contador de histórias.

Entre muitas que ouvi, lembro-me de uma relacionada a existência de um boto vermelho (que Jacques Cousteau chamou de cor-de-rosa), velho conhecido de nosso ribeirinhos. Foi assim que mestre Elísio relatou um fato acontecido com o pescador Saturnino Pantoja, que vivia em companhia da mãe e de dois irmãos menores e que após a morte de seu pai ficou sob sua responsabilidade para sustento e guarda da família. Sua mãe sempre o aconselhava para que não pescasse à meia noite, hora, para ela, sagrada como o meio dia, quando até os animais param para descansar. Saturnino nunca obedecia, pois achava ser aquela hora a melhor para pescar, devido o silêncio que sempre acontece no fim da noite e início do novo dia. Seus ouvidos acostumados podiam ouvir o barulho dos peixes se movimentando nas águas, principalmente o maior deles, o pirarucu, que em determinado espaço de tempo vem à tona para respirar e na volta às profundezas do rio faz um movimento brusco com o rabo facilitando ao pescador sua localização e o arremesso da haste em cuja ponta se encaixa o arpão certeiro. Saturnino era um jovem forte e corajoso, incapaz de se intimidar diante de uma situação perigosa que fosse. Não sabia o que era medo.

Certo dia, chegou da roça, já à tardinha, desceu ao porto com a cuia na mão e tomou um banho ligeiro. Jantou na companhia dos seus e foi verificar os apetrechos de pesca, ou seja: haste, arco, flechas, linhas e arpões, matérias indispensáveis à pescaria. Justamente onze horas da noite, embarcou no seu “casco” e dirigiu-se ao local onde sabia que iria encontrar grande quantidade de pescado.

Era agosto, as águas recebiam carinhosamente o sopro da brisa e se movimentavam lentamente, refletindo como um espelho, os raios do luar, transformando o cenário num espetáculo que só a natureza é capaz e um cérebro privilegiado de transformar em palavras a grandiosidade da beleza apresentada pela união: brisa, água e luar. Infelizmente não é o meu caso. Voltando ao nosso personagem que atônito como que lhe era dado observar, esqueceu momentaneamente o porquê de sua presença no local.

Exatamente à meia noite, começou a movimentar sua “montaria” em busca de um local para descer a poita e esperar o aparecimento do primeiro peixe a ser atingido por seu arpão. Não demorou muito a perceber um barulho e movimento estranho na água, como se algo estivesse alertando os peixes do perigo iminente e os levando para outra direção. Saturnino atentou uns minutos e entendeu a causa de tudo. Era a presença de um grande boto vermelho que por verias vezes atingiu o caso de sua frágil embarcação, pondo em risco a estabilidade da mesma.

Sem pensar duas vezes, empunhou sua haste e num movimento rápido atingiu com o arpão o dorso do intruso, que ferido gravemente se pôs a debater nas águas provocando um barulho infernal, ao mesmo tempo em que um silvo pavoroso cruzou os ares e imediatamente apareceram dezenas de botos vindos em socorro do chefe. Saturnino sentiu uma espécie de topor que o fez adormecer de pronto. Tempos depois despertou no xadrez de uma delegacia, cercado de soldados, todos fardados de vermelho. Foi levado á presença do subdelegado para ser submetido a interrogatório sobre o crime cometido contra autoridade policial.

Sem ainda entender o que estava acontecendo, foi levado a uma sala, onde viu em cima de uma mesa, coberto com um lençol branco um corpo bastante volumoso e quase inerte. Ao lhe ser mostrada a vítima, recebeu o ultimato de salvá-la ou ter que ficar preso para sempre. Um suor frio desceu do seu rosto em bica pelo corpo todo, parecendo ter saído da água naquele momento. Grande foi sua surpresa ao verificar que seu paciente era nada mais, nada menos que o boto horas antes arpoado por ele. Pondo em prática seus conhecimentos retirou o arpão alojado no corpanzil do “delegado”. Voltando à presença da autoridade de plantão, ficou sabendo que havia cometido um crime contra a pessoa de maior autoridade policial local, que em serviço fazia a ronda no lago onde aconteceu o fato antes narrado. Foi aconselhado a não repetir o delito, o que prometeu sob juramente, na presença de todos os policiais.

Passado pouco tempo, como a acordar de um sono agitado, Saturnino se viu dentro de sua embarcação, porém muito distante de sua casa. Mesmo sendo grande conhecedor da região não pôde de primeira, entender onde estava. Aos poucos foi se orientando até conseguir a direção correta. Chegando em casa já bem tarde onde seus familiares o esperavam alvoroçados, como pressentimento que Saturnino tinha tido o mesmo fim do pai, morto em uma pescaria. Todos ficaram felizes e Saturnino nunca mais foi à pesca no horário que lhe era comum. Passou a pescar sempre muito antes da meia noite como aconselhava sua mãe.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

UMA GAROTA “INOCENTE” – CONTO

Catedral00

CATEDRAL

Autor: Abreu, Ricardo

Há muitos anos, havia uma família oriunda de Santarém – PA que morava nas proximidades da cidade de Silves - AM.

O patriarca dessa família era Manoel Ventura, todos o conheciam como Ventura, por ser um sujeito bom e prestativo.

Um dia vindo à cidade de Itacoatiara comprar mantimentos e roupas para seus familiares como sempre fazia ao longo de vários anos.

Ventura conheceu uma bela mulher de vida fácil que se destacava pela sua beleza exótica e mãe de uma garota de 16 anos que nunca quis se dedicar aos estudos. Dizia que sua beleza a levaria ao estrelato iria fazer novela das oito.

Com essa paixão inesperada, passou a vir constantemente à cidade de Itacoatiara. Afim de, justificar suas viagens dizia aos familiares que estava tratando de um empréstimo no banco para poder ampliar seus negócios e tratar uma dor de estômago que apareceu rapidamente e que o incomodava.

Dalva pede ao amante da mãe que lhe desse 20,00 reais, pois necessitava com urgência. Dois dias se passaram e um novo pedido, agora são 50,00 reais.

Manoel percebeu que poderia tirar proveito da situação. Chamou a mocinha e lhe prometeu mais dinheiro, pois estava indo ao banco fazer um belo empréstimo.

No dia marcado pelo gerente do banco. Lá se foi o Manoel com todos os documentos exigidos. Confere papel, assinatura, avalista, Serasa, etc.

Depois de 3 horas esperando o gerente retorna a atendê-lo e diz que falta o documento do terreno que seria dado como garantia.

Retornando a casa da amante encontra a bela Dalva sorridente na janela, e pede que ele entre pela porta do lado da casa. Adentrando na casa Ventura sentiu uma forte dor na cabeça que o deixou estendido no chão.

O namorado de Dalva um bandido com uma ficha quilométrica na policia pega a bolsa que ficou caída no assoalho e percebe que não tem dinheiro.

Logo uma pequena discussão é formada, o que faremos agora, pergunta a “inocente mocinha”. O namorado pega uma sandália e dá várias sandalhadas na cúmplice, agora liga para policia e diz que esse otário tentou te agarrar a força e conseguiste escapar dando-lhe uma cacetada na cabeça do infeliz.

Ainda se encontrava zonzo quando a policia deu voz de prisão ao Dom Ruam.

Na delegacia tentava explicar que era inocente e o delegado respondia que ele iria também ao conselho tutelar, pois a garota era menor de idade.

Honorato compadre do Manoel sabendo do ocorrido e conhecedor de Dalva e de seu namorado, pede a filha advogada e que vá tirar o padrinho daquela situação vexatória.

A doutora conversa com o delegado e consegue provar que seu padrinho era inocente, pois tinha caído em uma armadilha arquitetada pelo casal de facínoras.

Chegando a sua casa é recebido como sempre pelos filhos, netos que correm para abraçá-lo e uma esposa fiel e dedicada ao lar. Em seguida, diz a todos que na cidade de Itacoatiara não volta mais, pois cansou de ser enganado pelo gerente do banco que não empresta dinheiro a ninguém e um médico que não descobre a causa da dor de estômago.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

FILHO DE BOTO - CONTO

1495Centro de Saúde da Fundação SESP em Itacoatiara (AM)

Centro de Saúde da fundação SESP ( Serviço de Saúde Pública)

Autor: Lemos, José / Abreu, Ricardo

O boto a noite adormecia o seu Raimundo que é marido de Rosa uma linda mulher de lábio carnudo e de um corpo sedutor, quando vinha na cidade fazer compras desfilava aquela belezura que Deus lhe deu e deixava a macharada toda em pavorosa e desejosos d’aquele corpo que “pertencia” a Raimundo do boto como era mais conhecido na pequena cidade de Itacoatiara encravada a margem esquerda do majestoso rio Amazonas. Nossa história começa no lago Canarana no município de Urucurituba. Raimundo sujeito trabalhador e ciumento, pois tinha se tornado marido da mulher mais bonita da vila de Itapeaçu, para não correr o risco de ser traído pela mulher levou-a consigo para seu sitio que se localizava na cabeceira do Canarana e por lá viveram por três anos felizes e tranqüilos. Mas, és que acontece o inesperado numa tarde tomando banho nas águas calma do lago. Rosa percebeu que um enorme boto vermelho também ali se encontrava e soltava fora d’água como se quisesse chamar atenção. Chamou por Raimundo que roçava uma pequena rebolada de capim logo ali perto. Esse boto esta com um comportamento muito estranho talvez esteja querendo me possuir disse ao marido. Que lhe respondeu te trouxe da cidade para não ser corno e você esta insinuando que vou ser de boto? Boto comigo é no arpão.

Passaram três dias e três noites do acontecido, Raimundo sonhara que estava num leito de hospital e era anestesiado pelo medico chefe, que tinha um rosto estranho mais chamava atenção pela cor da pele bem rosada, toda noite o mesmo sonho.

Rosa também sonhava com um cavalheiro elegante de terno branco e um chapéu do panamá que todas as noites chegava montado num belíssimo cavalo castanho, colocava-a na garoupa e cavalgavam a noite toda em lugares dantes imaginados.

Quando o dia amanhecia, Rosa acordava suada e cansada, o quarto com um cheiro forte de peixe e o assoalho daquela humilde casa coberta com palha da região todo molhado e ficando sem “entender” o que estava acontecendo.

Aquele corpo moreno da cabocla amazônica com cheiro misterioso de mata molhada era consumido pelo elegante cavalheiro de chapéu do panamá.

Rosa sentiu-se grávida e três meses se passam. Quando sente fortes dores a parteira é logo chamada e da seu veredito de anos de experiência em trazer as criancinhas a luz do mundo. Isto não é uma criança compadre Raimundo! É um filho das águas e a comadre Rosa já está em trabalho de parto ponha água para ferve que eu vou prepara a comadre para despejar esse fruto que não é desse nosso mundo. As horas passam lentamente o sol já se punha no horizonte quando nasceu um sirênio de mais ou menos 30 cm de comprimento. O sirênio não sobreviveu vindo a falecer logo em seguida. Era um animal perfeito e bastante rosado.

Raimundo enterrou o animalzinho no fundo do quintal. Comadre maroca terminou seu trabalho de parturiente como era uma senhora de bastante idade avançada mais não demonstrava pela sua agilidade em andar e lucidez no pensar tomou um banho e foi deita-se, mas sem antes receitar para rosa um caldo de galinha caipira de quintal.

La pelas oito horas da noite não foi mais possível dormir naquela pacata localidade, pois apareceu um bando de botos vermelhos e pretos que conversavam entre si numa linguagem indecifrável para simples mortais e que faziam um barulho infernal. Como se estivesse numa festa bem animada aonde os bêbados gritam e falam coisas que ninguém entende e a musica é tão alta que os ouvidos e a cabeça só falta estoura.

Ao amanhecer do dia seguinte, comadre maroca pede ao compadre Raimundo que ele verifique o local que tinha enterrado o botinho o compadre obedecendo às ordens da comadre foi ao local que havia feito o sepultamento.

Qual a sua surpresa o sirênio não mais se encontrava na cova, os botos da noite anterior tinham vindo busca o parente falecido.

O PAU DO RIO - CONTO

Rabeta no amazonas

Rabeta meio de transporte comum nos rio da Amazônia

Autor: Abreu, Ricardo

Essa história foi contada pelo próprio filho do seu Joaquim, num dos muitos encontros que faz com seus amigos na Praça do Relógio sem ponteiro, na cidade de Itacoatiara.

Contava-nos que seu pai era um sertanejo do sertão brabo, sujeito que nunca soube o que foi um banco de escola.

Veio para a Amazônia aos 17 anos no período em que os coronéis donos dos seringais acendiam charutos com notas de cem dólares. Tinha metido na cabeça que faria fortuna trabalhando nos seringais acreanos.

Foi realmente levado, juntamente com uma grande lava de homens para as bandas do Acre. Dessa forma, presenciou muitos companheiros de viagem morrer de malária e de outras doenças que aterrorizavam os seringueiros.

Cabeça chata, como era chamado na localidade Cachoeira da Boa Queda, onde trabalhou por 10 anos extraindo o látex das seringueiras, viu patrão mandar emboscar seringueiro que conseguia com duras penas tirar saldo no final do ano. Coisa rara de acontecer e quando acontecia o seringueiro querendo fugir daquele inferno, partia ao encontro da morte planejada pelo ex-patrão.

Contam as más línguas que o personagem dessa história matou oito capangas e deixou o coronel sangrando que nem porco estrepado em uma peixeira que nunca tirava da cintura e quando o fez, foi para fazer o serviço de fuga do seringal.

O filho Geraldo não confirma e também não nega esta parte da história.

Geraldo nos contou que um dia seu pai comprou um motor na Zona Franca e mandou que ele ficasse tomando conta da máquina enquanto ele, Joaquim, tomava conta do leme. E começaram uma longa viagem de Manaus até a cidade de Manicoré, lá pelas tantas, Geraldo percebeu que o leme não parava de girar fazendo o motor se enrolar que nem cobra, ora ia para a direita ora ia para esquerda, fazendo um estranho ruído nas correntes que prendiam o leme. Incomodado, quis saber o que estava acontecendo.

- Pai, o que está acontecendo?

E o pai responde com ar de autoridade:

- É esse pau aí no rio que não sai da frente do motor.

Geraldo olhou para o pau que navegava acompanhando o barco que seu pai pilotava tão nervosamente. Lá atrás cortando o infinito, uma linda lua nova iluminava um céu estrelado. Fazendo com que, o mastro do barco refletisse nas águas barrentas do rio Solimões.

O BAILARINO ALADO - CONTO

Pôr- do - Sol

Pôr-do-sol na cidade canção.

Autor: Lemos,José

Sempre que ligava a televisão, para assistir noticias do Estado, através do canal Ajuricaba, era comum assistir nos intervalos, o show apresentado por um filhote de socó, que no ritmo da música, dava uma demonstração de um verdadeiro dançarino. Não sabia o porquê do repentino desaparecimento do pássaro até que um dia resolvir fazer uma viagem imaginaria, ao interior do município de Nova Olinda do Norte, precisamente ao lago do cajui, onde encontrei uma família de nordestinos, remanescente dos soldados da borracha, que no tempo da guerra, eram recrutados no Ceara para trabalharem no Amazonas e Acre, na extração do látex da seringueira.

Ainda no seu estado, eram-lhe dito da facilidade de se trabalha na produção da borracha. Para eles era só cortar a árvore e colher a matéria prima já acabada, no ponto de ser vendida ao comprador. Puro engano.

Seu Bonifácio e os filhos, Cícero de dez anos, Sebastião de onze e Zé Mario de doze, vieram em busca do Eldorado prometido.

Chegaram a Manaus no ano de 1942 e depois de poucos dias numa hospedaria, juntamente com os milhares de conterrâneos foram embarcados para os seringais do Acre. Vou deixar de contar o resto da história da família do seu Bonifácio, pois já desviei bastante do assunto “Socó”.

Os três irmãos já mencionados, todos já eram casados e com netos, um dos quais era agora, uma espécie de chefe da casa, ou melhor, da comunidade, pois viviam na mesma propriedade adquirida por eles, logo depois do fim da guerra.

Conversando com o mais novo da turma, o Zezinho, de quinze anos, fiquei sabendo a verdadeira história do nosso personagem. Criado desde pequenino, o pássaro era colocado num varal, bem ao lado de uma janela de onde todos os dias ele ouvia músicas tocadas num velho gramofone, e sempre repetidas, por falta de outros discos de vinil.

Assim o socozinho ia, no afam de se equilibrar no varal, apresentado o seu balé involuntário, um dia um visitante ficou tão impressionado, que resolveu filmar aquela dança que terminou sendo apresentada na televisão.

Gabriel, o dono do pássaro, depois de muita insistência conseguiu autorização do pai para sair em buscar do fujão, que já causava muita saudade em todos da comunidade.

Formada a expedição, composta por três membros da família, Gabriel, Cícero e marcos a fim de levar a bom termo a empreitada. No terceiro dia de viagem, já bem longe do local da partida acamparam sob a sombra de uma grande sumaumeira e lá pernoitaram sem antes combinarem que o dia seguinte seria o ultimo da tentativa para encontra o “filhotinho” de socó desaparecido.

Bem cedo, estavam ainda levantando acampamento quando ouviram não muito longe uma espécie de concerto, formado por cânticos de vários pássaros, todos conhecidos pelos membros da expedição. Logo se aproximaram e qual a surpresa da turma ao verem a frente da orquestra, como um verdadeiro regente, o motivo de toda trabalheira. Um socó imponente e altivo comandava uma turma imensa de pássaros vários, todos perfilados seguiam as instruções do chefe. No final, ensaiaram uma dança tão bem executada que os nossos amigos esqueceram completamente o motivo da viagem. Agora só viam o que estava acontecendo e o porquê da beleza apresentada pala natureza, principalmente àquela hora da manhã.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A SARACURA - CONTO

avenida 15 de novembro

Avenida 15 de Novembro

Autor: Lemos, José / Abreu, Ricardo

Aconteceu no alto seringal de Beira Alta no estado do Acre. Um rapaz boa pinta, conversa mansa, estilo mineirinho (como é mais conhecido: o come quieto). Vindo recente da cidade de Ouro Preto, estado de Minas Gerais classificada desde 1980 como patrimônio cultural da humanidade pela agência das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Sua fundação em 1711 foi resultado da aglutinação, para fins administrativos, de uma série de povoados (arraiais) dedicados ao garimpo do ouro na área da Serra do Itacolomy, processo iniciado em 1698 pelo paulista Antônio Dias de Oliveira.

Mas nós não vamos falar de Ouro Preto, pois de lá o nosso personagem saiu da Serra do Itacolomy por se envolver em uma paixão ardente, com a mulher de um famoso garimpeiro da região, fugindo desembarca no estado do Amazonas e em seguida prosseguir sua viagem para o Estado Acre para trabalhar nos seringais. Chegando à localidade de beira alta, logo se engraçou pela moça mais bela do lugar. Conversa vai conversa vem, acertaram um encontro.

O rapaz diz para a moça de nome Dalva:

- Quando a noite chegar eu vou imitar a saracura lá embaixo da sumaumeira e tu vás ao meu encontro!

Tudo acertado e como prometido o rapaz de nome Miguel começou a imitar o canto da referida ave.

O pai de Dalva, nordestino, recrutado como soldado da borracha diz para a mulher:

- Acende o fogo e coloca água pra ferver que eu vou matar essa saracura para o jantar.

Dalva ouvindo as palavras do pai começou a embalar e cantar com seu irmão mais novo uma canção mais ou menos assim:

“Voa, voa saracura que meu pai que te matar.

Voa, voa saracura que meu pai que te matar.

Voa, voa saracura que meu pai que te matar.

Dizem os moradores da localidade que até hoje o rapaz está embrenhado nas matas acreanas.

A GRANDE SUCURIJU - CONTO

P1000261

Este exemplar possui mais de dez metros.

Autor: Abreu, Ricardo

Um dia estando conversando com um velho pescador na escadaria do antigo mercado central. Quando observamos descendo o Rio Amazonas uma pequena ilha sendo levada pela correnteza da estrada Real como é conhecido o Rio Amazonas pela sua importância no transporte fluvial. A cidade é Itacoatiara que fica localizada a margem esquerda do referido rio. O nosso amigo pescador é o seu Raimundo, que começa a conta que conhecia uma localidade no Paranazinho do Ramos onde uma ilha mudava de lugar, indo de um lado a outro do rio, sempre em dia de temporal forte. Seu Raimundo sujeito sério um cearense queimado de sol de anos de labuta na proa de uma canoa, humilde e honrado criou seus oitos filhos com muita dificuldade. No entanto, hoje se orgulha e diz com muita alegria meus filhos são doutores, Professores e comerciante o mais moço na cidade de Manaus. Mas vamos voltar à ilha do Paranazinho do Ramos. Pois é, diz o velho pescador, como estava dizendo essa ilha se movimenta contra o vento no dia que tem temporal, pois muitos moradores do lugar já presenciaram o fato. Dizem os entendidos que embaixo da ilha tem uma enorme sucuriju com mais de vinte metros e que fica assustada com o vento forte do temporal e é por isso que ela se desloca de uma margem a outra do Paraná. Quando o tempo esta calmo é um ótimo pesqueiro, pois ali se encontra grande variedade de peixes que são atraídos pela bichona, eu mesmo pesquei muitas vezes lá e graças a meu bom Deus nunca aconteceu nada comigo. O senhor nunca teve medo da cobra grande? Seu Raimundo olhar por um instante para a ilha que se afastava ao longe e com a religiosidade que lhe é peculiar responde. Quem com Deus anda com Deus se acha.

O MONSTRO DO LAGO ARARI - CONTO

itac12

Limpeza e construção da orla do rio.

Autor: Abreu, Ricardo

Quando ainda era pequena e morava na fazenda bom futuro no lago do Arari, Alzimara ouvia dos moradores mais velhos historias de cobra grande e seu maior sonho como de qualquer outra criança da sua idade. era presenciar o aparecimento da bichona,naquele belíssimo lago que ficava bem em frente de sua casa pois não acreditava naquelas histórias contadas no terreiro da fazenda nas noites clara de luar. Luar este que dava um efeito especial nas águas do majestoso lago. As curimatãs de arribação que batiam com o rabo nas águas num belo espetáculo da natureza, a mata próxima liberava um perfume suave misterioso e enigmático acompanhado de vários tons musicais de uma orquestra regida por um maestro desconhecido que tinha pleno controle sobre seus comandados naquela maravilhosa noite de uma lua azul que cortava o céu dando a impressão que todos os pássaros noturnos entoavam canções para alguém em especial. Todos que ouviam ficavam calados somente escutando sem entender o que estava acontecendo naquela noite, pois para o caboclo da Amazônia peixes e pássaros são comuns no dia a dia, mas nessa noite não teve a tradicional roda de conversa, ninguém queria perder aqueles trinados vindos do interior da floresta. Na fazenda também morava um grande número de cearenses vindos no período áureo da borracha e quando souberam que os seringais não os fariam ricos como era prometido na propagando de recrutamento nas cidades cearenses resolveram fica na cidade de Manaus não mais se deslocando aos altos seringais do acre e madeira preferindo trabalhar em fazendas próximas a Manaus ou sendo carregador no porto manauense.Seu Joaquim como era chamado o rico fazendeiro nascido nos açores veio muito jovem para o Brasil trazido pelo seu tio Manoel um português desiludido no amor que veio fazer fortuna nas terras de além mar. Comprou bastantes terras na região do rio arari e transformando-as em uma prospera fazenda de gado, mas a malária perseguiu o portuga que se viu obrigado a abandonar o lugar, como não encontrou ninguém disposto a comprar sua propriedade a entregou ao sobrinho e foi morar no rio de Janeiro. Joaquim se tornou o rei do gado do lugar, pois fazenda não havia igual a sua. Seu Joaquim não deixava ninguém tomar banho no lago que ficava bem na frente da sede da fazenda afirmando que era muito perigoso, pois havia visto uma imensa cobra sucuriju que habitava o lugar e que já tinha pegado vários animais da fazenda e pessoas desavisadas que iam banha-se nas águas calma do lago. Mas como havia dito anteriormente os cearenses não acreditavam na história do patrão e tomavam seus banhos alegremente ao por do sol poente naquela imensidão de água coisa nunca vista para eles, pois da terra que vinham não havia fartura de água a seca castigava e matava homens e animais de sede nos sertões nordestinos obrigando-os a deixarem muitas vezes famílias e se deslocarem ao amazonas em busca de fazerem fortuna e se tornarem ricos, mas não era isso que acontecia eram mandados aos seringais e por lá morriam de impaludismo devendo o patrão que cobrava uma fortuna pelo alimento que era consumido no período que o pobre passava cortando as estradas de seringas e quando conseguia juntar algum dinheiro e ia prestar contar com o patrão e que tirava saldo era tocaiado e morto pelos jagunços. E com isso, nunca saiam vivos da localidade. Mas és que um dia um empregado da fazenda de nome Ambrósio chamou meu pai Carlos um sujeito sério, honesto e trabalhador homem de confiança do patrão para presencia um fato que estava acontecendo no lago. Como toda criança curiosa, corri para ver do que se tratava. No lago tinha um animal enorme dos vinte metros ou mais que flutuava na imensidão do lago calmo, sentir também que até as folhas das árvores estavam paradas por falta do vento forte que sempre dava no horário das duas horas da tarde. Aquele animal brilhava como um diamante na luz do sol tinha algo parecido com dois chifres na cabeça, sua cor era de um vermelho suave todos que estavam na fazenda puderam presenciar o acontecido. Só agora depois de vinte anos é que conto esta história, pois antigamente tinha medo e vergonha que as outras pessoas rissem de mim.